24 horas de treinamento – Como é a rotina de um atleta de alto-rendimento

Publicado em 09/08/2017 por

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“Todo dia ele faz tudo sempre igual. Se sacode às 6 horas da manhã”. O trecho da música Cotidiano, de Chico Buarque, descreve perfeitamente como é a rotina de um atleta de alto-rendimento. Campeão mundial em 2007 e bicampeão Pan-Americano, em 2011 e 2015, Luciano Corrêa repete uma dura agenda todos os dias, desde que tinha 16 anos.

Hoje, aos 34, o atleta que desistiu da aposentadoria após a frustração de não ter disputado a edição Rio 2016 da Olimpíada, trabalha duro para voltar ao topo de sua modalidade – atualmente ele ocupa o 16º lugar do ranking da Federação Internacional de Judô (IJF). Sabendo disso, o Observatório do Esporte, resolveu acompanhar um dia “comum” do judoca, que treina seis dias por semana, sendo cinco em rotina integral.

Para começar, Luciano acorda todos os dias às 6 horas para iniciar sua dura rotina de treinos, alimentação, fisioterapia e descanso. Após levantar da cama, o atleta toma o café da manhã, que normalmente é uma xícara de café, tapioca e uma fruta de sua preferência, antes de seguir rumo ao Minas Tênis Clube para a primeira sessão de treinamentos, que tem início às 7h30.

Chegando, Luciano vai direto para a academia, onde se encontra com os outros judocas da equipe, em sua faixa de peso. Daí para a frente são pelo menos duas horas de musculação, alternando exercícios comuns em aparelhos, com exercícios específicos do Judô.

Em meio ao equipamentos da academia, Luciano também mescla exercícios específicos de Judô. Crédito: Felippe Drummond

Em meio ao equipamentos da academia, Luciano também mescla exercícios específicos de Judô. Foto: Felippe Drummond

“É uma transferência de potência, primeiro eles vão aos aparelhos onde fazem um esforço com pesos e de explosão. Quando saem, aplicam golpes, sempre em três repetições. Isso faz com que eles tenham o hábito de aplicar golpes mesmo quando o músculo está cansado, o que é muito comum nas lutas”, explica o preparador físico do Minas Tênis, André Avelar.

Como também foi judoca, inclusive tendo feito parte da seleção brasileira, André usou sua experiência no dojô para desenvolver essa série de exercícios, o que agrada os atletas, mas que também seja funcional para uma melhor preparação física.

“Acho que são os treinos duros, mas é a dedicação e o esforço que fazemos todos os dias que separam um atleta comum, dos atletas que se destacam. É isso que busco fazer há mais de 18 anos. E, desde quando comecei a trabalhar com o André, ficou ainda mais fácil, como ele é ex-judoca, sabe montar as séries de treinamento sem trabalhar apenas os músculos, ele leva a prática do judô para dentro da academia”, destaca Luciano.

Passado o treino matinal é hora de descansar. Antes, porém, Luciano acompanhado de seu scoop com o pós-treino, faz junto a André uma avaliação de qual foi a intensidade do trabalho. As notas vão de 0 a 10, sendo zero o equivalente a pouco esforço, e dez, a esforço exaustivo.

Para André, o resultado ideal da auto avaliação é quando o atleta fica cansado, mas não exausto, o que é uma nota que varia entre 4 e 7. “O objetivo é sempre este, já que trata-se apenas do primeiro treino do dia. É preciso lembrar que, no período da tarde terão que trabalhar a parte técnica. Se gastarem toda a energia na parte física, acabam se prejudicando”, conclui o preparador físico.

Feito isso, Luciano vai para o refeitório onde almoça, seguindo sua dieta alimentar. Nada de exageros nem carne gordurosa. Como está liberada, a salada colore seu prato. Entre alface, tomate e alguns legumes, uma porção generosa de carboidrato, normalmente o arroz coberto por uma concha de feijão, e um filé grelhado, de peixe ou frango, completam sua refeição.

Ao término do almoço, por volta de 11h10, o judoca se despede dos companheiros, vai para sua casa e fica em repouso até 13h, horário que ele precisa voltar ao clube. Primeiro a chegar, Luciano vai direto para o dojô onde se encontra com o técnico da equipe, mestre Floriano Almeida, para conversar antes do início do treino marcado para às 14h.

Sensei Floriano passa algumas instruções ao judoca antes do treino da tarde. Foto: Felippe Drummond

Sensei Floriano passa algumas instruções ao judoca antes do treino da tarde. Foto: Felippe Drummond

Praticamente sozinhos no local, eles conversam sem serem interrompidos e o atleta recebe algumas instruções do sensei. “Sempre costumo conversar com os atletas, gosto de ter a opinião deles de como estamos, e também de ter este momento de olho no olho com eles. Não coloco barreiras na nossa relação. E com o Luciano é muito tranquilo, além da experiência, já trabalhamos há muitos anos juntos e sei como fazer ele aprender uma técnica nova ou aprimorar uma que ele já domina. Normalmente, são esses detalhes que conversamos”, conta Floriano.

Após essa conversa, o dojô, que antes estava praticamente deserto, se enche com a equipe completa. O treino se inicia com algumas “brincadeiras” que servem de aquecimento, e duram em torno de 20 minutos. Com os atletas já aquecidos, Floriano passa as instruções de como as atividades serão desenvolvidas. Ele divide os judocas em dois grupos que vão se alternar em séries de três minutos de luta/descanso.

Por ser um atleta da categoria meio-pesado (até 100kg), Luciano treina com os maiores e mais pesados atletas do clube. A cada dois rounds, seu adversário muda. Mas a exigência é uma só: atacar sempre que ver uma brecha, e se defender bem quando seu adversário tenta sua entrada. Enquanto isso, o treinador fiscaliza e chama a atenção quando não gosta da atitude dos atletas. Assim, a atividade se desenrola por quase 1h30, antes de terminar com a maioria dos atletas esgotados.

Foto: Felippe Derummond

Foto: Felippe Derummond

Fim dos treinos, início da recuperação

Mas o dia ainda não acabou. Após tamanho desgaste, é comum que os atletas sintam dor e precisem de um acompanhamento do fisioterapeuta do time, Rafael Freire, que assiste diariamente o treinamento da arquibancada, e fica mais de uma hora após o treino, à disposição dos atletas.

“Existem dois tipos de tratamento que fazemos: o de prevenção, que é este em que acompanhamos diariamente os atletas para evitar que eles se lesionem. E o pós-lesão, que é quando o recuperamos com tratamentos mais rígidos. O primeiro, fazemos no próprio local do treinamento. O segundo, vamos para a sala de fisioterapia onde temos os aparelhos específicos”, conta Rafa, como é carinhosamente chamado pelos judocas.

E a relação entre ele e os atletas é de extrema transparência. “Nós atletas convivemos com a dor diariamente. Mas é importante não ficar escondendo nada. Sempre que termina o treino, eu vou ao Rafael para ele avaliar meu ombro e joelho. Se tiver com alguma dor latente, eu também lhe informo. É melhor tratar as coisas no início”, conta Luciano, que nos dois anos de trabalho em conjunto só precisou fazer o tratamento preventivo.

Ao final da fisioterapia, por volta de 18h, Luciano está liberado para ir para sua casa. Ele ceia um queijo quente ou toma uma vitamina de frutas, antes de finalmente iniciar o importante período de descanso, até às 20h30, que é a hora de seu jantar, onde ele come praticamente o mesmo que no almoço, apenas retirando o feijão do prato. É importante que ele siga à risca estes horários, uma vez que o intervalo entre a última refeição e o sono noturno não pode ultrapassar duas horas. Às 22h, chega ao fim mais um dia comum para Luciano: é hora de dormir para acordar às 6h do dia seguinte e começar tudo de novo.

Exército

Se o dia a dia de Luciano no clube já parece ser um martírio, anualmente o judoca precisa se apresentar pelo menos uma vez ao Exército. Por ser um atleta militar, desde 2009, o judoca tem como obrigação passar um período no Rio de Janeiro servindo às Forças Armadas. Lá, ele muda praticamente toda sua rotina de treinamentos diários, por um período que pode ser de duas semanas até um mês.

“No Exército, eu acordo uma hora antes, para treinamentos militares, e só depois que liberam para o treinamento do judô. Além disso, também precisamos fazer alguns serviços comuns a todos os militares, como atualização de cadastros, treinamento de tiro, entre outros. É meu dever que eu faço com muito orgulho, afinal, sou um militar por opção”, conclui Luciano.

Controle de peso e restrição no cardápio

Não bastasse o esforço físico, outra parte de extrema importância na preparação de um atleta de alto-rendimento é a obediência alimentar. Para um desempenho de nível olímpico é preciso respeitar um cronograma de alimentação e uma dieta balanceada.

Marcus Ávila, nutricionista do Minas, proíbe os atletas de comerem alimentos com muito açúcar ou sódio. Foto: Felippe Drummond

Marcus Ávila, nutricionista do Minas, proíbe os atletas de comerem alimentos com muito açúcar ou sódio. Foto: Felippe Drummond

Segundo o nutricionista do clube, Marcus Ávila, não há uma proibição de algum alimento. Porém, seguir uma dieta balanceada é muito importante para que o atleta esteja sempre com energia suficiente para executar suas obrigações diárias.

“Um atleta de alto-rendimento, como é o caso do Luciano, costuma ter de seis a dez refeições diárias, dependendo da intensidade dos treinamentos e da perda calórica que eles exigem. Mesmo assim, é bom controlar alguns alimentos que nós tratamos como vilões. São os casos dos doces, que contêm muito açúcar, e dos alimentos industrializados, ricos em sódio”, explica Marcus.

“Ninguém gosta de ter essas restrições alimentares, mas como atleta é preciso entender e aprender que uma boa alimentação é tão importante como todas as outras partes do treinamento. O corpo de um atleta é como uma máquina, se você não colocar o combustível de alta octanagem, você nunca irá funcionar no seu limite”, exemplifica o próprio Luciano Corrêa.

Outro adversário que os judocas enfrentam, é a balança. Diferentemente de outras modalidades de luta, no judô os atletas não tem o luxo de realizar a pesagem dias antes da luta, eles precisam estar no peso de sua categoria sempre que vão subir no dojô. Ou seja, se um atleta disputar uma competição e precisar lutar cinco vezes naquele dia, ele será pesado em todas.

“Minha categoria é de 90 a 100 quilos, e eu normalmente estou nesse peso. Obviamente quando estou próximo de uma competição, aumento o controle sobre isso. Tento deixar uma folguinha para não correr risco de a alimentação daquele dia interferir de uma luta a outra. Nunca tive problema com isso”, garante o judoca.

Overtraining

Outra parte importante nos treinamentos de um atleta de alto rendimento, que acaba não recebendo o devido valor, é o descanso. Após cada sessão de treinos, Luciano precisa fazer pelo menos uma hora de repouso total. Esse tempo faz com que sua musculatura se recupere e esteja pronta para a nova série de esforços repetitivos, evitando assim o temido overtraining – quando há excesso de treinamento ou estimulo muscular e acaba fadigando ou até mesmo lesionando o músculo.

Apesar de perigosa, a prática é muito comum e acontece quando o atleta ultrapassa os limites de seu corpo treinando mais que ele aguenta. Foi para evitar isso que o preparador físico André Avelar adotou em seu sistema de treinamento a autoanálise de esforço descrito no início deste texto.

“Faço isso para controlar como cada atleta está fisicamente. Afinal, a ideia é que todos os atletas que fazem a mesma série de exercícios a terminem com o mesmo nível de desgaste. Se um atleta acaba avaliando de uma forma que destoa dos outros, ligo meu alerta e acompanho mais de perto para ver se ele está bem, evitando assim o excesso por parte dele. Infelizmente, tem atleta que acaba pecando por treinar demais”, lamenta André.

Bolsa-Atleta

Para realizar tudo isso, Luciano Corrêa, conta com a assistência do programa Bolsa Atleta da Secretaria de Estado de Esportes (SEESP), desde a primeira edição do programa, em 2013. O mecanismo tem o objetivo de garantir a manutenção da carreira dos atletas e técnicos de alto rendimento, buscando dar condições para que se dediquem ao treinamento esportivo e à participação em competições para o desenvolvimento pleno de sua carreira esportiva. Assim, podem manter e renovar periodicamente gerações de atletas com potencial para representar Minas Gerais nas principais competições nacionais e internacionais.

Em 2016, foram disponibilizadas 109 bolsas e, como no edital anterior, serão destinados um total de R$ 1.132.500,00 para o pagamento do benefício no prazo de um ano, com repasses em parcelas bimensais, cujos valores variam de acordo com categoria.

Felippe Drummond/Observatório do Esporte de Minas Gerais

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