Disciplinas com foco em esportes para deficientes ainda são insuficientes para formação de profissionais

Publicado em 15/09/2017 por

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Fotos: Tiago Ciccarini/Feemg

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O interesse da população brasileira pelo esporte paralímpico emergiu no ano passado, com a realização dos Jogos Paralímpicos Rio 2016. No âmbito da formação dos profissionais de Educação Física, no entanto, a abordagem do tema não é nova, mas ainda é considerada insuficiente.

Dados do IBGE de 2015 revelam que 6,2% dos brasileiros tem algum tipo de deficiência. A Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) considerou quatro tipos de deficiências: auditiva, visual, física e intelectual.

Em resolução do ano de 2004, que institui as diretrizes curriculares nacionais de para os cursos de graduação em Educação Física, o Conselho Nacional de Educação orienta que as questões pertinentes às necessidades das pessoas com deficiência deverão ser abordadas no trato dos conhecimentos da formação do graduado.

Buscando informações sobre a difusão de conhecimentos na área do paradesporto no âmbito das instituições de ensino superior de Minas Gerais, foram encaminhados, no dia 16 de fevereiro, questionários para endereços de e-mail de 93 faculdades que, segundo o portal do Ministério da Educação (MEC), dispõem de cursos presenciais de Educação Física, com prazo para retorno até 10 de março. Dentro do período, 13 instituições encaminharam respostas à Secretaria de Estado de Esportes de Minas Gerais, das quais sete são federais. Todas afirmaram contar com disciplinas voltadas para o esporte adaptado ou paralímpico em cursos de bacharelado ou licenciatura com carga horária média de 60h/aula. Os professores responsáveis pelas aulas são especialistas em quatro faculdades, mestres em três, doutores em três, pós-doutor em uma instituição e, em dois casos, os docentes possuem experiência prática. Nenhuma das instituições que responderam o questionário disse possuir curso de pós-graduação voltado para o atendimento às pessoas com deficiência.

A Universidade Federal de Lavras vai além do ensino dentro da sala de aula com o projeto de extensão ‘Iniciação Esportiva de Pessoas com Deficiência em Jogos Paralímpicos’, cujo objetivo é a inserção de pessoas com deficiência no mundo esportivo, a partir da adaptação das práticas esportivas. A iniciativa encontra-se em fase de capacitação dos 12 monitores, todos alunos do curso de Educação Física. A expectativa é de que as atividades se iniciem ainda no primeiro semestre de 2017, atendendo mais de 60 pessoas.

Carga horária insuficiente

A educadora física Fernanda Antunes formou-se há um ano. Ela acredita que a carga horária disponível nos cursos superiores é insuficiente para uma boa formação profissional para atuação com atletas deficientes. “Quem quer trabalhar nessa área acaba tendo que apelar para uma especialização ou buscar a vivência em projetos que contemplam o esporte paralímpico”, pontuou. “Sei que existem projetos para os estudantes poderem desenvolver a atuação com deficientes, mas são pouco divulgados ou não despertam um interesse tão grande da comunidade acadêmica ainda”, disse.

A estudante Lina Vitarelli, que cursa Educação Física, já trabalha com esporte paralímpico e concorda com Fernanda. “O esporte adaptado tem muitas especificidades, com grande e denso conteúdo. Temos que aprender as deficiências, os conceitos básicos de acessibilidade, as terminologias, as adaptações esportivas e como atender esse público e as modalidades paradesportivas. Muita coisa para 60h”, ressaltou. Além de considerar a carga horária pequena, ela acredita que a vivência no esporte paralímpico é valiosa para os profissionais que queiram atuar nesse segmento. “A prática é de extrema importância, uma vez que é difícil para um estudante ou até mesmo para o profissional adaptar o esporte na escola para todos os alunos ou trabalhar uma modalidade paradesportiva visando o alto rendimento”, concluiu.

Fotos: Tiago Ciccarini/Feemg

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No mesmo sentido, Walter Pedrosa, formado em 2016, já deu aulas para atletas deficientes e também não vê na carga horária de 60 horas como suficiente para a formação de profissionais plenamente aptos ao trabalho com esporte adaptados. “Há uma necessidade enorme de que essa carga horária seja maior, pois são vários eixos transversais para serem trabalhados dentro deste aspecto, como também a necessidade de vivenciar praticar pedagógicas para exercer a educação para esses alunos”. Ele não acredita que os Jogos Paralímpicos Rio 2016 tenham contribuído para despertar o interesse dos profissionais de Educação Física. “Raramente você vê algum profissional que se manifesta nessa área, talvez por preconceito ou preguiça, já que se trata de um trabalho mais delicado e de total entrega”, comentou. “Acho que é um tema que deve ser extremamente difundido, de diferentes formas. Prática desportiva é uma possibilidade de vida e não deve ser negada a ninguém”, encerrou.

“Alunos devem ir além da sala de aula”

Para a professora da disciplina de Atividade Física Adaptada do Curso de Educação Física da Universidade Federal de Minas Gerais, Andressa Mello, quando o MEC estabelece normas vários fatores são levados em consideração. “A carga horária independe muito, pois o aluno tem que extrapolar seus estudos além da sala de aula para se tornar um bom profissional. Muitas vezes nós professores passamos o conteúdo básico e mostramos o caminho para que o aluno possa ter mais conhecimento na área”, argumentou.

Segundo a professora, após os Jogos Paralímpicos Rio 2016 o tema se tornou mais popular entre os estudantes. “Esse é um grande legado, o reconhecimento das pessoas em relação às capacidades das pessoas com deficiência em realizarem algum esporte adaptado”, comemorou. Para ela, o mercado necessita de mais profissionais que queiram trabalhar com paradesporto. “Muitas vezes os profissionais se concentram em regiões como São Paulo, Rio de Janeiro e Santa Catarina. Precisamos formar profissionais para os outros estados”, disse.

Paradesporto mineiro

Desde o início de 2017, a Secretaria de Estado de Esportes (SEESP) passou a contar com uma Coordenação do Paradesporto, uma conquista da pasta, que em março completou dois anos de existência de forma independente, sem ser ligada a outras temáticas, como ocorria em gestões anteriores.

A área foi inserida à estrutura da SEESP com o objetivo de identificar oportunidades, propor estratégias de ação, buscar parcerias e fomentar o desenvolvimento do esporte para deficientes no estado.

 Renata Silva/Observatório do Esporte

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