A crueldade de alguns esportes*

Publicado em 03/08/2012 por

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Qual o esporte mais cruel? Todas as modalidades oferecem seu tipo particular de glória, tensão e fracasso, mas alguns são mais implacáveis com os atletas do que outros. O futebol, por exemplo, já foi imperdoável, a ponto de destruir a carreira de um jogador. O goleiro brasileiro Barbosa nunca se recuperou da derrota do Brasil para o Uruguai por 2 a 1, na final da Copa de 1950, pela qual foi responsabilizado. Mas o futebol, com as inúmeras oportunidades e salários milionários que oferece hoje, tornou-se razoavelmente paciente e benevolente com os jogadores.

O inglês David Beckham foi hostilizado e transformado no diabo em forma de gente na Inglaterra depois de ser expulso contra a Argentina, na Copa de 1998. No jogo, ele deu um pequeno chute sem bola no argentino Diego Simeone, que incorporou Shakespeare e transformou o incidente em um sofrimento comparável ao de Hamlet. Cartão vermelho para Beckham, que deixou a Inglaterra lutando por 30 minutos na prorrogação com dez homens em campo. Parecia que Beckham nunca seria mais aceito pelos ingleses em sua seleção. Pois a hostilidade durou pouco. Mesmo sem nunca ter dado à Inglaterra um título sequer, ele é tratado como deus do futebol, da moda e dos cortes de cabelo nestas terras. Ninguém nem mais se lembra do que aconteceu na Mundial da França.

Os esportes tipicamente olímpicos, especialmente os individuais, tendem a ser muito mais cruéis. O tênis, o basquete e mesmo o vôlei têm outros palcos onde seus atletas podem brilhar, como a NBA, os Grand Slams e a Liga Mundial. Para o ginasta, uma série em uma Olimpíada é tudo. Um erro pode colocar a perder quatro anos de trabalho, como aconteceu com o brasileiro Diego Hypolito. A natação também é individual e depende dos Jogos Olímpicos para ganhar as manchetes, mas o desempenho de um nadador está menos ligado a detalhes, como a altura de um salto, a queda no solo, a precisão de um movimento. Um nadador nada e pronto. Seu desempenho é fruto de treino, capacidade e determinação, mas menos sujeito a pequenos erros de inúmeros tipos que podem fazer brilhar ou destruir a carreira de um esportista.

Outra modalidade cruel é a dos saltos ornamentais, uma espécie de ginástica sobre a piscina. A dupla britânica Tom Daley e Peter Waterfield ia bem na disputa por uma medalha no salto sincronizado, diante de sua torcida, no Centro Aquático de Londres. Até que no último salto Waterfield saiu da base de forma levemente errada. Foi o suficiente para os dois saltadores se descolarem um do outro, numa apresentação desorientada que os tirou do pódio. Quatro anos jogados fora por causa de um salto, um movimento errado feito por apenas um dos saltadores, apenas metade de uma equipe.

O tenista pode recomeçar na semana seguinte, pode esquecer a frustração de Roland Garros e logo se concentrar em Wimbledon. O jogador de futebol pode lutar por um título nacional se o continental ficou para trás ou mesmo mudar de time para se livrar de um clima ruim. O maratonista pode logo se esquecer da frustração em uma maratona para se concentrar em outra. Um ginasta, um saltador e outros atletas de esportes em que detalhes são determinantes e que dependem dos Jogos Olímpicos para aparecer na mídia certamente escolheram carreiras difíceis. Seus esportes são lindos e emocionantes. Mas também são extremamente cruéis.

* Matéria de Rogério Simoes, retirada do site www.revistaepoca.globo.com (link direto)

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