Feitas para vencer*

Publicado em 08/08/2012 por

Imprimir Envie para um amigo por email
Print Friendly, PDF & Email

Representadas pela primeira vez em todas as delegações, as mulheres conquistam marcas históricas e são as grandes estrelas da Olimpíada de Londres.

Por Rogério Simões e Felipe Pontes.

“Impraticável, desinteressante, antiestético e inapropriado.” As palavras do barão Pierre de Coubertin já fazem parte do folclore das Olimpíadas. Ele listou os quatro adjetivos para descrever, no apagar do século XIX, a ideia de uma Olimpíada com mulheres. Mais de 100 anos depois, a passagem da jovem nadadora chinesa Ye Shiwen pelos Jogos de Londres desperta conceitos opostos. Ye realizou algo não apenas possível, mas também emocionante, belo e adequado. Conquistou duas medalhas de ouro com apenas 16 anos, nas duas provas que disputou, baixou o recorde mundial dos 400 metros medley em mais de um segundo e nadou os últimos 50 metros da prova em 17 centésimos a menos que um consagrado campeão da atualidade, o americano Ryan Lochte.

A tímida Ye foi a mais brilhante estrela do início dos Jogos de 2012, o primeiro da história com mulheres em todas as delegações participantes. Como se não bastasse a marca histórica, a Olimpíada viu a primeira negra campeã da ginástica artística, a americana Gabrielle Douglas, também de 16 anos. Dias antes, o mundo conhecera uma campeã ainda mais jovem que as duas, a lituana Ruta Meilutyte, de 15 anos, ouro nos 100 metros peito. Na Olimpíada das mulheres, a história é escrita por meninas.

A inédita participação feminina nos Jogos de 2012 foi repetidamente festejada pelo comando do Comitê Olímpico Internacional. Na cerimônia de abertura, o presidente do COI, Jacques Rogge, disse em seu discurso que a nova edição dos Jogos representava “um grande incentivo para a igualdade de gêneros”. Dois meses atrás, ainda não era certo que Arábia Saudita, Catar e Brunei enviariam mulheres para as competições, algo que nunca haviam feito devido a seus costumes religiosos e culturais. A dias da Olimpíada e diante da possibilidade de ser excluídos dos Jogos, os sauditas relutantemente se juntaram aos outros dois países e anunciaram o envio de duas atletas, a corredora Sarah Attar e a judoca Wojdan Shaherkani.

As mulheres participaram pela primeira vez das Olimpíadas na segunda edição dos Jogos, realizada em Paris em 1900. Jogaram apenas em tênis e golfe, esportes em que a força não era considerada essencial. De lá para cá, a participação feminina subiu de 3,5% dos eventos para mais de 45%. As 269 mulheres atletas dos Estados Unidos formam em Londres, pela primeira vez, um contingente maior que o dos homens (261). Os russos também levaram mais mulheres que homens, fenômeno que ainda não ocorreu no Brasil. Nada mais apropriado que, na Olimpíada que marca a emancipação das mulheres, as maiores estrelas estejam entre elas.

Algumas brasileiras engrossaram a lista das vencedoras. Foi o caso de Sarah Menezes. Aos 22 anos, a piauiense de Teresina conquistou no dia 28 a primeira medalha de ouro do judô feminino brasileiro. “Quando comecei, meus pais falavam que o judô era um esporte masculino”, disse Sarah, já com a medalha no peito. Dias depois, Mayra Aguiar, de 21 anos, obteve o bronze, a terceira medalha do esporte para o Brasil. Nos esportes coletivos, o grande destaque brasileiro tem sido o handebol. Depois de três vitórias e uma derrota, o time sonha com uma medalha.

As conquistas femininas não impediram que a velha discussão sobre o corpo feminino surgisse na primeira semana dos Jogos. Pelo menos na quadra de areia instalada ao lado do Parque de St. James para as partidas de vôlei de praia. A imprensa esbaldou-se com as imagens de atletas de biquíni e transformou o uso da vestimenta em questão central do esporte. Com a perspectiva de vento e chuva em alguns dias do torneio, tabloides britânicos pediam a suas atletas que mantivessem o corpo à mostra. As jogadoras americanas prometeram manter o espírito do vôlei de praia californiano, com pouquíssima roupa. Mas as campeãs olímpicas Misty May e Kerri Walsh renderam-se ao frio do verão londrino e jogaram uma partida com o corpo coberto. O mesmo fizeram as brasileiras Talita e Maria Elisa. O tabloide The Sun chegou a pedir que chovesse nos jogos de vôlei de praia, o que aumentaria o apelo sensual do esporte. Para as mulheres atletas, a vestimenta é o que menos importa. Elas estão na Olimpíada para vencer.

* Matéria retirada do site www.revistaepoca.globo.com (link direto)

Imprimir Envie para um amigo por email
Print Friendly, PDF & Email

Deixe um comentário

Você deve estar logado para postar um comentário.

Videoteca

Impulsiona realiza live sobre atividade física no retorno às aulas presenciais Impulsiona realiza live sobre atividade física no retorno às aulas presenciais

03/12 Impulsiona realiza live sobre atividade física no retorno às aulas presenciais