Memória do Esporte: Gerações do handebol se encontram

Publicado em 31/10/2013 por

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Entrevista com Canhão e os mestres: Afonso da Silva e José Ataíde Lacerda – lendas do handebol mineiro, nacional e mundial.

Afonso da Silva, foi massagista de atletas de vários esportes e técnico formador de grandes jogadoras do handebol feminino, profissionalizando esse esporte em cidades como Sete Lagoas, Vespasiano e Pedro Leopoldo. Trabalho nos colégios Frei Orlando e Santa Inês. Atuou na seleção mineira de voleibol. Ajudou a inaugurar o CEU e o Mineirinho. Foi também campeão de atletismo, ginástica e tênis de mesa em Minas e no Brasil. Não se considera professor, mas um técnico de handebol. Emocionado, confessa que nunca fora antes homenageado e teve a oportunidade de falar de seu trabalho como esportista.

José Ataíde Lacerda é natural de Caratinga/MG. Formou-se em Educação Física, no ano de 1960. Marcou época no Estadual Central e na Escola Estadual Sagrada Família, onde formou atletas de renome internacional, como o próprio Canhão do handebol, um dos entrevistados. Apaixonado também por vôlei, basquete e atletismo, dentre outros esportes, introduziu em suas aulas conceitos inovadores como maratonas, corridas rústicas e até teatro. Conhecido por seu estilo exigente e também afetuoso, foi um segundo pai para diversos alunos, tornando-se um dos grandes mestres do esporte mineiro, brasileiro e porque não, do mundo.

Canhão: Tive o privilégio de estudar na Escola Estadual Sagrada Família. Eu nasci no bairro Boa Vista, aqui em BH. Naquela época, o Ataíde era meu professor. Eu havia parado de treinar, pois meu tênis havia furado. Ao saber disso, o Professor Ataíde pediu para ver e eu mostrei o furo, constrangido. Ele mandou eu vir no dia seguinte,  pois iria comprar um tênis novo para mim. No dia seguinte, o Professor Ataíde me chamou e disse: “Experimenta aí, moleque!” (risos). O tênis coube perfeitamente. Fiquei com vergonha de chorar na frente dele, ao mesmo tempo em que lembrava  de minha mãe dizendo para não me esquecer de agradecer (risos).

Professor Afonso: Eu sinto falta da confraternização entre os atletas, técnicos e demais envolvidos na prática do esporte. Sou contra a atual premiação nas competições infantis, tão usual nos dias de hoje.

Professor Ataíde: Um dos problemas da prática esportiva nos dias de hoje é o perigo que um atleta adolescente corre no caminho de ida e volta dos treinos, à noite, principalmente.

Canhão: Vale ressaltar que, antigamente, os pais entregavam os filhos para os professores de educação física e treinadores com grande confiança, como se esses mestres do esporte fossem membros da família desses alunos e futuros atletas. O que o Professor Ataíde fez por mim, por exemplo, também fez por outros. Ele tinha o olhar certo para enxergar um futuro grande cidadão e atleta. Ele me ajudou também com alguns puxões de orelha (risos).

Professor Ataíde: Sim, porque naquela época não era constrangedor ter tido a orelha puxada! (risos).

Canhão: Nossa sociedade mudou pra melhor, mas muitos não enxergam as excelentes ferramentas que temos hoje a serem usadas em prol da educação dos futuros cidadãos brasileiros. O Professor Ataíde nos ensinou a usar a casa de fora e a casa de dentro. A casa de fora era nossa escola e o nosso lar e a nossa casa de dentro era nossa disciplina e nossa formação como homens. Enfim, ele nos dizia que se não fôssemos homens íntegros, não seríamos grandes esportivas.

CM: Canhão, fale um pouco mais sobre essa consciência socioambiental que acabou de citar. Como podemos viver em uma sociedade melhor, utilizando de fato o esporte como ferramenta pedagógica?

Canhão: Posso dizer que, em países desenvolvidos, mestres como Ataíde e Afonso são referências vivias para futuros professores, quando esses cuidam dos seus pupilos. Os mestres Ataíde e o Afonso formaram grandes atletas, por que não eram só professores ou técnicos, mas também amigos orientadores.

CM: Há poucos dias, me encontrei com o Afonso, a caminho de um treino. Ele parecia estar com a pressão baixa. Com seriedade, eu, Luiz Carlos, na hora do treino, disse às suas atletas: “O Afonso é um patrimônio do esporte brasileiro. Por favor, busquem-no em casa e o levem de volta, ao fim dos treinos”. Interessante frisar que as meninas atenderam ao meu pedido. Levaram seu técnico e mestre para casa com todo o cuidado e carinho que ele merece.

Canhão: Essa atitude das alunas é essencial para a segurança pessoal de nossos mestres e também é uma obrigação moral por quem tanto fez pelo nosso esporte. Entendo que atitudes como essas mostram o reconhecimento que sentimos por esses valorosos profissionais do esporte.  Quero aproveitar a oportunidade e mais uma vez, agradecer ao zelo e cuidado que você Ataíde, teve comigo. E, Afonso, digo que tenho por você todo o respeito que você merece. Tudo o que ganhei no esporte, devo a mestres como vocês.

Professor Afonso: Eu fico triste por serem poucos os Canhões que existem por aí! (risos). Se hoje sou o Professor Afonso e sou respeitado por meus alunos, é porque tenho vocês do meu lado.

CM: Professor Ataíde, por gentileza, você tem a palavra para fechar o nosso encontro.

Professor Ataíde: Primeiramente, agradeço as boas palavras e boas lembranças de vocês, amigos aqui presentes. Sempre lutei muito para fazer as coisas que fiz, e hoje, o que sou agradeço a meus alunos e atletas, aos meus amigos e a Deus, por ter me dado saúde. Que Deus abençoe a todos nós.

Márcia Teresinha Cardoso Soares (jogadora da seleção mineira e brasileira de vôlei, nas décadas de 70 e 80 e especialista em marketing cultural e esportivo: Esse nosso encontro está documentado e vai rodar o mundo! Vocês firam história! Não estamos aqui por acaso. Canhão, você veio do exterior para fazer esse encontro acontecer. Dessa forma, Deus ajunta tribos, raças e nações!

Luiz Carlos Faria – Jornal Cidadão do Mundo 

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